Entrevista com Dr. Valmir Rosa: A saúde dos pastores e líderes

April 26, 2019

 

 

Quando pastores e líderes estão esgotados física e mentalmente o primeiro médico que lhes vem à cabeça é o cardiologista. É mais fácil pensar que há algo errado com o “coração físico” do que enfrentar a realidade da “comida demais e errada”, “falta de atividade física”, “atividades demais, sem respeito ao descanso e limites do corpo e da mente” ou “dificuldades de gerenciar suas emoções”.

 

Como mordomos de Deus, todas as pessoas são responsáveis diante Dele pela maneira que vivem suas vidas e como si conduzem em relação às coisas e pessoas. Não é apenas o cuidar das finanças da Igreja, mas também entre outras coisas, cuidar da saúde do seu corpo, emoções e mente e a do outro.

 

Pensando nisto, entrevistamos o Dr. Valmir Rosa. Graduado em Medicina pela Universidade Estadual de Londrina, com titulo de cardiologista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. Dr. Valmir também é especialista em Missiologia pela Faculdade Teológica Sul Americana. Autor do livro: Saúde Integral – Vivendo a vida intensamente, da Editora Descoberta.

 

O Sr. acredita que os pastores e líderes estão sofrendo mais por falta de saúde física e mental? É uma população que está acima do peso ou obesa, sofre de depressão, pressão alta, ansiedade, AVC, infarto, câncer, diabetes e colesterol com maior frequência? Quais as principais doenças diagnosticadas em pastores e líderes?

 

Valmir – De uma maneira geral todos e não somente os pastores e líderes, carecem de um entendimento maior a respeito de saúde e de saúde integral, que só acontece quando temos um equilíbrio entre as questões entre o físico/corpo, a alma/emoções/personalidade e o espiritual.

 

Com os pastores e líderes isso não é diferente mas com o agravante de que eles definitivamente não se cuidam, não fazem esportes, não tem momentos de lazer e que muitas vezes nem ao médico vão para fazer check-ups regulares. As causas desse comportamento são múltiplas, como a dificuldade em ter acesso a saúde, falta de recursos, falta de tempo e tantas outras mais, e infelizmente isso é uma realidade.

 

Não há diferenças nas doenças diagnosticadas entre pastores e líderes e outros pacientes, mas eu diria que há um maior descaso com a saúde nessa classe profissional, assim como uma aderência menor aos tratamentos propostos. Talvez por acreditarem que Deus vai dar conta de algo que é nossa responsabilidade fazer.

 

Temos atendido a muitos pastores com depressão, síndrome do pânico, frustrações ministeriais e familiares, obesidade, que sem dúvida tem sido um problema muito sério no meio pastoral, e até tentativa de suicídio.

 

O trabalho do pastor e do líder é muito estressante, eles são mais propensos a se queixarem de demandas excessivas no trabalho, críticas, isolamento e estresse. O que fazer se há esta conexão psicológica entre o estresse prolongado e a saúde física da pessoa?

 

Valmir – Sabemos que a demanda emocional dos pastores e líderes é bem grande, e por isso mesmo eles são os que mais deveriam se cuidar e estar com as coisas em ordem. Sem dúvida observamos uma grande angústia nessas pessoas e a pergunta já menciona algumas das principais razões para isso: as demandas excessivas, onde o ativismo impera pois, o meio evangélico entrou por um caminho onde o significado de sucesso ministerial passa a ser relacionado ao número de membros que tenho, ao tamanho da minha igreja e da minha equipe e do aporte financeiro que acontece.

 

Temos visto muito sofrimento nessas pessoas por conduzirem a igreja como uma verdadeira empresa, e isso demanda mais sofrimento emocional. A questão do isolamento também é um fator importante pois esse líder não pode abrir o coração para qualquer um, mostrar-se normal e carente, e entre os pastores não é comum relacionamentos onde se possa comportar dessa maneira.

 

Participamos algumas vezes de um trabalho desenvolvido pela Faculdade Teológica Sul Americana, onde oferecemos a pastores essa oportunidade, de falarem abertamente com outros sobre as questões práticas e angustiantes do ministério, e foi muito proveitoso. Este tipo de trabalho deveria existir em muitos lugares.

 

O que fazer? Todos temos questões interiores, sejam traumas que vem desde a infância ou coisas atuais, e precisamos ter alguém para quem contar, para compartilhar e nos ajudar. Isso gera saúde em nós e pode ser oferecido por um amigo íntimo, por um conselheiro, por um psicólogo, senão nosso físico sente mesmo, e assim aparecem as taquicardias, a queda de cabelo, a úlcera gástrica e tantas outras coisas.

 

A maioria dos pastores e líderes sente que nunca tem tempo o suficiente para cuidar de si mesmo e acredita que o descanso ou a atividade física/hobby é algo necessário. Mas na prática, pelo receio de decepcionar as pessoas ou por outros motivos, vemos que prefere ficar disponível 100% do tempo negligenciando assim o cuidado com o seu corpo e mente. Como mudar esta situação?

 

Valmir – Fizemos uma pesquisa recente junto a pastores e líderes sobre essa questão do stress no ministério, e sabe qual a maior causa dele? A agenda, seja a falta dela ou o seu excesso. Isso é interessante, pois precisamos rever essa correria e ativismo que nos cercam.

 

Como fazer algo concreto? Voltando para a palavra de Deus que nos ensina a respeito das prioridades: 1) minha vida de comunhão com Deus, 2) minha familia, 3) minha profissão/ministério. Temos feito as coisas nessa ordem? Não!

 

Os pastores mal tem tido tempo de ter comunhão com Deus, o que oferecer então a outros? A família tem ficado em último plano e daí advém tantas deturpações seja com os filhos, no próprio casamento e ministério. É stress em cima de stress por erros nas nossas prioridades. Ficamos correndo atrás do vento e deixando aquilo que é importante passar. Para isso, atitudes concretas precisam ser tomadas e muitas vezes quebrar paradigmas, o que poderá gerar crise, seja individual seja na igreja onde está, mas é necessário colocar as coisas em ordem senão o físico não aguenta e mais cedo ou mais tarde algo acontece.

 

Falar sobre saúde física e emocional dos pastores e líderes não é fácil, pois não parece espiritual. Esperamos que os pastores sejam automaticamente saudáveis e moralmente puros. As Igrejas maiores já disponibilizam aos seus pastores um plano de saúde, mas mesmo nestas, poucas “exigem” um ckeck up anual. Como a Igreja pode cuidar de seus pastores e líderes? Qual é a responsabilidade da Igreja?

 

Valmir – Sinceramente não creio ser o papel da igreja “exigir”que o seu pastor faça esse ou aquele check up, pois isso tem que ser consciência do próprio pastor. A igreja oferecendo a ele condições de que isso seja feito, seja com uma assistência médica ou com um salário digno, já é o bastante. Mas, creio sim, no papel da igreja como um instrumento para educar, ensinar e direcionar segundo o que a palavra de Deus ensina, e ela fala muito a respeito de integridade em todas as áreas.

 

Creio que uma dessas maneiras de ensinar, é quebrar o paradigma que infelizmente nos “perseguiu”por tanto tempo quando ensinava-se erradamente que crente não fica doente, que se há doença necessariamente tem algum pecado e coisas desse tipo. Nem sempre é assim e precisamos entender que se vivemos nesse mundo caído, a possibilidade de enfrentarmos crises, doenças e tribulações é algo bem concreto e por isso precisamos nos cuidar.

 

Temos visto muitos líderes e pastores terem o seu ministério encurtado de uma maneira horrível por um infarto, por um acidente vascular, por uma diabetes, secundários a uma obesidade, a falta de atividade física, falta de tempo de qualidade, a erros de alimentação, e com certeza se houvesse um pouco de atenção e cuidado não seria assim.

 

Quais os cuidados básicos que o pastor e/ou líder deve ter para com a sua saúde?

 

Valmir - Coisas simples como: fazer esportes regularmente, ter momentos de lazer sozinho e com sua família, permitir-se ser normal como qualquer pessoa. Então, fazer check ups regularmente nas diferentes áreas, como a cardiologia, a urologia para os homens, a ginecologia para as mulheres e outras tantas. Cuidar do peso tendo também uma alimentação saudável. Lembrar que as pessoas estarão olhando para eles, é preciso ser exemplo. Você iria a um cardiologista que fosse obeso? Ou fumante? É a mesma coisa no ministério.

 

Temos tantos conselhos à respeito do cuidado com a saúde física, emocional e mental descritos na Bíblia, como: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (Pv 4.17). “Ame a seu próximo como a si mesmo” (Mt 22.39). “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho” (At 20.28). “Atente bem para sua própria vida e para a doutrina (1 Tm 4.16). “Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que estais em vós, o qual tendes da parte de Deus, e não sois de vós mesmos?”(I Cor. 6:19).”Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (I Cor 10:31), entre outros. Por que a mensagem de cuidado encontra tanta resistência em nós?

 

Valmir – Creio que essa questão é bastante complexa para ser respondida, mas podemos apontar algumas coisas que temos visto. Uma delas é o fato de vivermos nesse século, quando tudo é aparentemente fácil e obtido num clicar de dedos no computador. Não subimos mais escadas, pegamos o elevador. Não andamos mais a pé, pegamos nosso carro para as menores tarefas. Sequer nos levantamos para mudar um canal de tv, usamos um dos 20 controles que estão a nossa frente. Acomodamos-nos demais.

 

Nessa modernidade, também comemos fast food, comida pronta e cheia de gordura, e isso vai trazendo as suas consequências. Um tempo atrás fomos falar em um evento de pastores e levamos um esquema para medirmos a pressão arterial, as taxas de colesterol e de açúcar no sangue, e o resultado foi assustador. Quase todos, com raras exceções, estavam com todas as taxas altas.

 

Também lembramos que trabalhar as questões de nossa alma geralmente trás muita dor e sofrimento, então na maior parte das vezes é mais fácil deixar a sujeira embaixo do tapete, até que tudo venha a tona e gere crise.

 

E, por fim, as questões espirituais, que vem sendo bombardeadas com uma mensagem deturpada do cristianismo quando tudo se resolve com uma oração “poderosa”, com uma “corrente de oração”, com um voto ou promessa. Gerando assim a falsa compreensão de que crente não adoece, não fica deprimido, não passa por lutas e dissabores na vida. Deixamos de lado a nossa co-participação e a liberdade que Deus nos dá para agirmos e tomarmos as nossas decisões, pelo livre arbítrio que Ele nos deu.

 

Quais as suas considerações finais para pastores e líderes?

 

Valmir – Lembro-me do livro de Gênesis, capítulos de 28 a 30, quando Jacó encontra Rachel. O texto nos oferece muitas coisas preciosas, mas quero destacar esta: após ter conquistado as suas esposas, ter enriquecido e também ao seu sogro, enfim, ter feito muitas coisas, Jacó faz uma pergunta: “quando farei algo em prol da minha família, de mim mesmo?” Precisamos fazer esta pergunta a nós mesmos. Podemos ter ministérios prósperos, Igrejas enormes, com grande aporte financeiro, com muita influência social e até mesmo política, mas o que temos feito por nós e pelos nossos queridos?

 

Temos atendido muitos pastores e líderes que na aparência estão bem, tendo sucesso, mas que na intimidade de um consultório a coisa não é bem assim. A frustração é grande, seja com as pessoas, seja com a Instituição, seja financeira, na família, com o cônjuge e mesmo os filhos. Será que vale a pena? É hora de fazermos algo por nós mesmos, e isso passa desde um tempo de qualidade até um bom check up. Cada um sabe do que precisa.

 

Pastores e líderes tem um chamado da parte de Deus, e se não houver mudanças, esse ministério não vai alcançar tudo aquilo que Deus gostaria e nem gerará frutos para a eternidade. É hora de romper paradigmas e mudar. Esse é o meu desafio a todos.

 

Extraído do Vigiainet.com

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